Eu tenho uma conhecida que todos os seus posts eram falando mal do Brasil. Era no nível "país de merda" pra baixo. Ano após ano. Eu sentia vindo dela um ódio meio doentil por sua pátria. Eu nem lia as coisas do "país de merda" que ela postava, porque... eu moro neste país de merda e concluo que eu devo ser uma das privadas que despeja merda nele.

Um dia ela conheceu um gringo. Nórdico. Escandinavo. E seus posts se alternavam entre "país de merda" e "Escandinávia linda maravilhosa perfeita". Me chamava a atenção que nunca, nenhum  de seus posts era uma declaração de amor apaixonada pelo bofe, como qualquer post de mulher apaixonada faria, mesmo que discretamente num aniversário de namoro. Mas sempre eram apaixonados pela Escandinávia. Um dia ela casou e, à muito custo conseguiu um visto permanente de moradia naquelas terra longínquas. 
Seus posts se tornaram: "viram? aqui é assim, aí (no Br) não é"; "aqui fazem isso, aí (no Br) não fazem". Uma casa isolada no interior escandinavo, garota da capital que ela era, talvez ela nunca escolhesse morar no interior isolado do Brasil. 

Mas a cada retrato seu postado da maravilhosa Escandinávia, eu noto seus olhos. 
Tristes. 
Sem vida. 
Seu sorriso... qual sorriso? Uma boca meio caída, meio sem graça que antes era preenchida por um sorriso vasto de belos dentes imensos. 

Enquanto eu, filha de meu pai que escolheu o Brasil pra ser sua pátria e que nunca faltou um sorriso e um olho brilhando mesmo com tantas dificuldades que ele passou por aqui. Um país de terceiro mundo. Meu pai de dupla nacionalidade sempre me convence (ou tenta) de que eu posso conseguir tudo que quero aqui, que não preciso ir pra fora. Claro que duvido.
Mas ao mesmo tempo que herdei de meu pai esse senso de pátria, de comunidade, ao mesmo tempo acho que não. Porque sou a ovelha negra. 

"Lar é onde está seu coração". Essa é uma frase que sempre me intrigou. Em que sentido é o "coração"?
No sentido de "pessoas que você ama" ou no sentido de "lugar que você se identifica"? Se for qualquer um deles, acho que nunca terei um lar, nunca me sentirei plenamente em casa. Todo lugar que moro me sinto uma estranha no ninho. Já estou desistindo de acreditar que existe um lugar (idealizado) que eu serei sempre feliz. Acho que quando chegarei naquele lugar, sentirei novamente vontade de partir pra outro. Porque o "problema" não é o país, o "problema" sou eu. E minha alma inquieta.

Sou uma idealista, confesso! Não acredito em fronteiras. Meu mundo ideal seria livre de fronteiras, nômade, selvagem e ao mesmo tempo, contraditoriamente, com muito senso de comunidade, organização aos que optassem por ficar um pouco mais de tempo num lugar. As pessoas andariam por onde elas quisessem e quando quisessem. Nunca haveria tristeza nos corações, pois suas pátrias seriam cada passo dado.
Como na música do Titãs, "nenhuma pátria me pariu". Mas não, nunca se referindo especificamente ao Brasil e sim, ao mundo de propriedade patriarcal que moldou tudo que somos e almejamos hoje. Pois o conceito de propriedade privada é o que move ($$$) o mundo.

Eu imagino que, no meu mundo idealizado, sem fronteiras, os olhos, nas fotografias, nunca fiquem tristes.

Às vezes "o mal" somos nós mesmos, mas usamos os problemas da pátria como motivo.

Os olhos em fotografias revelam muita coisa. Às vezes mais do que eu queria saber.



12 Comentários

  1. Que texto lindo Sana! Compartilho muito dos seus sentimentos.
    Eu sou daquelas que vive tentando sair de São Paulo, porque sente falta de uma vida mais calma, como já conversamos várias vezes sobre isso... Em questão de país, eu sinceramente, não sei se eu conseguiria morar em outro lugar, eu sinto medo. Eu vejo por aí brasileiros sendo maltratados e isso me dá pânico. Sem contar que eu acredito que isto aqui pode melhorar se a gente parar de achar tudo um lixo e começar a fazer alguma coisa pra melhorar. Poxa, não tem médico bom? E se todos aqueles que se formarem acreditarem nisso? Eles nunca serão bons. Não tem nada bom que você gosta? Comece a fazer você mesmo. A gente pensa tanto que os outros fazem história e meio que esquece qeu a gente pode fazer também. Seu texto me comoveu, enxergo as mesmas coisas em uma fotografia... Beijos Sana! <3
    4sphyxi4.blogspot.com.br

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    1. Eu acho maravilhoso que você, tão novinha, já tenha noção de onde quer morar e este local é uma cidade menor. Eu vivi inquieta nas cidades que morei me sentindo deslocada... se eu mudasse pra fora do país, isso iria junto comigo, não cessaria. Certas angústias e incertezas estão dentro de mim e não num local específico...
      Por isso os olhos tristes... porque de repente cai-se na real que "o problema" é a gente mesmo, ser mal resolvido e usar a pátria como sanitário para incapacidade e para a falta de senso de comunidade.

      Quem tem avós imigrantes sabe que, na cultura europeia deles, deixar o próprio país em tempos difíceis é visto como traição, aqui no Brasil, é visto como orgulho e conquista pessoal. Bem diferente.
      Se eu "sair" daqui, dando um foda-se pra quem ficou, me dirão: "parabéns pela conquista". Como se fosse um mérito eu ter deixado terra brasilis. Somos tão "especiais" que não merecemos este lugar...??
      Acho que não somos especiais... somos tristes (mas fingimos sermos felizes), melancólicos, passivos, temos baixa auto estima, pouco senso de comunidade, não acreditamos no nosso poder transformador, menosprezamos algo muito importante que é entender como funciona a politica e temos mania de achar que "não vai dar certo" antes de tentar.

      É de toda essa mentalidade nacional que luto pra me livrar! Ela nos amortece, anestesia e nos cala.
      Eu gosto de fazer a diferença, mesmo que seja uma diferençazinha dentro do meu alcance.
      Esse é um assunto muito difícil de abordar, pois é cultural e lida com nossas dificuldades e ao mesmo tempo com nossos sonhos e ideais... Admiro pessoas como você que conseguem enxergar aqui mesmo, a solução de suas vidas, sem neuras. :)

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    2. Entendo perfeitamente o que quer dizer! E raramente vejo essas "conquistas pessoais" como conquistas de verdade, afinal, vários países por aí brasileiros são tratados pior que m**. É claro que aqui não é o paraíso, mas com a mentalidade que a massa anda, de que tudo não presta, de "brigar" pelo país "no facebook" (que na verdade, parece mais um método depreciativo, só pra falar mal do Brasil mesmo), nunca iremos mudar, crescer... É claro que eu gostaria de conhecer os outros lugares, mas no final do dia, voltar pra minha casinha e pras pessoas que sorriem, ou brincam comigo quando me veem na rua (geralmente aqui no Br as pessoas são mais alegres né). E enfim, entendo o que é se sentir deslocada, infelizmente, esse sentimento me acompanha por boa parte da vida, e a única coisa que tenho certeza é de que quero me aproximar mais da natureza. São Paulo é meio pesado pra quem é sensitivo, ainda mais pra quem gosta de calma. :/

      Beijos Saninha! ^^ ♥

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    3. Acho triste isso de "brigar", Jaque. Porque quando a gente "cresce", percebe que muita notícia é lançada pra causar pânico mesmo. Enquanto isso, os bons e as coisas boas vão sendo ignoradas. Os governos se interessam por um povo e pânico, assim, eles "vendem" as soluções em forma de promessas na próxima eleição.

      Mas acho que a mudança depende de cada um de nós. Eu conheço gente que "dá jeitinho" de driblar leis, conheço empresa que tá fazendo coisa errada e já sofri tentativa de suborno. Quando passo por estas situações, percebo que estas pessoas escolheram um caminho egoísta que os favorecem em primeiro lugar e não se interessam pelo grupo, a comunidade que se ferre. Pra mim, essas pessoas não tem moral nenhuma pra reclamar do país, pois elas são o país. Eu e minha família já passamos por assaltos, situações revoltantes, mas acho que podemos usar nossa emoção de modo consciente.

      Viagens e até mesmo morar em outro lugar/país, com certeza enriquecem e abrem a mente. Todos deveriam ter essa oportunidade de ampliar seus horizontes ao menos 1x na vida! Encontrar-se e descobrirem-se!
      Ah, simpatia como dos brasileiros não tem igual, percebo isso "convivendo" com meus colegas gringos haha!
      Eu também amo o interior pelo mesmo motivo, mais calmo e com natureza pertinho. Por mais deslocada que me sinta, óbvio que consigo aproveitar o que é oferecido de bom, não sou louca a esse ponto de não reconhecer isso! :D

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  2. Oi Sana!
    Ah os olhos! Lembra que te falei dos seus? Eles revelam tudo, né?
    Espelhos da alma triste em molduras muitas vezes sorridentes. São os olhos desta mulher que vc descreveu.
    Eu chamo Curitiba de lar, porque é onde mora meu coração. No interior é uma nostalgia, uma saudade de infância. Em Curitiba...ah sinto falta do cheiro, da sensação do calor, do céu nublado, das curruíras fazendo baderna nas árvores.
    Ás vezes, sinto falta do Japão. E nunca estive lá! Mas se perguntassem onde quero morar, diria Brasil. Mesmo com seus problemas. Se o Destino me colocou nesta terra, motivo deve ter, eu creio nisso.
    Boa reflexão. Em dias como estes, de Petrobrás e corrupção, lembrar dos olhos tristes de tua amiga seria um amargo aviso a muitos, infelizmente.
    Beijos!

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    1. Verdade Vívien, lembro que você me falou dos olhos!
      Os olhos dessa moça realmente me chocam, impressionante como denunciam algo que não é revelado pelas roupas ou gestos ou paisagem...
      Sabe que o local que mais me sinto assim como você se sente com Curitiba, é Sampa? Mas quando chego lá, sofro com a questão da qualidade de vida... que é "inferior" à de cidades menores em alguns aspectos...
      Essa sensação de sentir falta de local que nunca fui, eu também sinto e curiosamente é o interior da Inglaterra. Juro! Interior! Não é nem em Londres! Acho que li livros demais da Agatha enquanto crescia kkkkkk
      Sobre eu ter nascido aqui (quase nasci no exterior), é algo que sempre reflito, quando vejo meus pais e minha irmã (meu irmão mora no exterior), eles não sentem a mínima vontade de sair daqui... é interessante como cada pessoa lida com "lar".
      Bjs!!

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  3. Sana's Queen, lar é o lugar onde você é amado e bem recebido. :) Penso eu. ^^ Eu tenho vários lares: casa da mãe, minha casa,casa de vó, de amigos, enfim! Ótimo texto para refletir.

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    1. Jehssy! Acho que isso serve pra boa parte das pessoas. O curioso no meu caso é que depois que minha mãe mudou de cidade, eu não me sinto mais em casa na casa dela O.o tipo, é uma coisa muito louca que eu ainda não sei lidar!

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  4. Que texto lindo Sana!
    Eu também penso como você. Queria viver em um mundo sem fronteiras. Onde cada um pudesse ir onde quisesse e quando quisesse. Mas que ao mesmo tempo, todos soubessem o que é viver verdadeiramente em comunidade. Acho que somos bem parecidas nesse ponto.
    Eu nunca me mudei. Sempre vivi a vida inteira na mesma casa, na mesma rua, no mesmo bairro.....
    Aliás, morei dois anos em outro lugar, mas eu realmente não me lembro dessa fase lá, já que foram os dois primeiros anos de vida. Mas voltando ao que eu ia falar, eu sempre morei no mesmo lugar, mas eu também sempre me senti uma "estranha no ninho". Acho que assim como você, o problema está em mim mesma, já que em todas as minhas fantasias de morar em diferentes lugares, eu sempre me vejo também querendo sair de lá depois de um tempo. E olha que já me imaginei em muitos lugares diferentes.

    Sobre os olhos em uma foto, eu concordo plenamente. Eles dizem tudo. Até o que a própria pessoa não sabe, ou finge não saber. Tava pensando sobre isso agorinha mesmo, ao visitar o site de uma blogueira e reparar em seus olhos tristes, acredita?

    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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    1. Você é feminista né Mone? Acho que por isso também se identifica com um mundo sem fronteiras, já que essa coisa de "terra e propriedade" é uma das heranças machistas mais antigas que temos. As guerras tão aí pra comprovar isso. Viver sem fronteiras, livres, com senso de comunidade seria perfeito, uma volta aos tempos pré-patriarcais :)

      É... temos a mesma impressão então, que o "problema" não é o local, somos nós mesmas. Ou ainda não encontramos "O" nosso local, ou somos inquietas mesmo. ;)

      Verdade... os olhos revelam demais, eu sempre reparo neles, mas neste caso do texto, é tão chocante o contrate do "antes e depois" que eu me sensibilizei. :(

      bjs!

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  5. Olha Sana, acho que o problema é que temos que parar de idealizar as coisas. Isso eu aprendi na marra. Morei durante 4 anos e meio em uma cidade do interior do Piauí. Uma cidade em que faltar água é a coisa mais comum, energia (a companhia de energia do Piauí é uma bosta), área de celular. Internet? Reze para conseguir assistir um vídeo no youtube. Lugares para sair? Pizzaria e sushi.

    Lá tem muita festa, porém de forró q n curto. Imagina eu, uma menina criada a vida toda em uma capital em outro estado do nordeste (apesar de ter nascido em Teresina e ir sempre nas férias), vivendo em um lugar desses? Foi muito sofrimento, mas nem tanto pela cidade, foi mais pelo ambiente da minha faculdade q era péssimo. Muiiiiiita fofoca e intriga. Gente querendo te ferrar a toda hora. E lá, fiz poucas amizades.

    Porém, hoje estando de volta na casa do meu pai em uma capital, percebo q aqui n é essa maravilha toda. O transito é insuportável. A cidade é suja igual a q eu morava, as pessoas aqui tb dão valor demais a dinheiro e aparências. Hoje me sinto mais feliz pq aqui voltei a fazer coisas q gosto. Mas o mais importante: aqui tenho amigos.

    Então, assim. Nenhum lugar é maravilhoso e todos tem suas coisas boas e coisas ruins. Felicidade é uma coisa interna msm e percebo q existem duas coisas q me fazem feliz: ser eu mesma, fazer as coisas q gosto e ficar perto dos meus amigos e família. Muitas vezes eu fui feliz lá onde morava tb e esses momentos foram quando eu fazia algo divertido com os poucos amigos q fiz lá. Às vezes era só se reunir para jogar uno e beber. Até pq ninguém é feliz o tempo todo. A questão tá em se na maior parte do tempo vc é feliz ou triste.

    E caso vc queria ter uma vida mais nomade, é possível. A gente precisa ter coragem para "tomar à vida". Teoricamente só existe essa e temos q tentar ser o mais feliz possível. Vi um vídeo esses tempos sobre o fato de q muitas vezes procuramos por alguma coisa. Porém, a resposta talvez n esteja em algo q tem q ser encontrado e sim q precisamos fazer esse algo.
    Boa sorte!
    Bjos!

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    1. Essa coisa da idealização é algo que luto constantemente! Vira e mexe me vejo idealizando coisas, lugares, pessoas... mas daí caio na real que não é assim que tenho que viver.

      Sabe que minha história é um pouco semelhante, mas inversa? Eu sou do interior, fui morar em capital e hoje o que eu mais valorizo e me identifico é com a vida interiorana apesar de TODAS as dificuldades em termos de oportunidades, lazer e opções de qualidade de vida...
      E percebo que mesmo faltando muita coisa pra eu viver bem, estar feliz tem a ver mesmo com nosso "interior" (estar bem consigo mesma) e entender como as coisas ao nosso redor funcionam e mudá-las quando é possível.
      Já o "fazer algo", é o que mais me trava mesmo. Eu meio que "sei" o que tenho que fazer, mas algumas circunstâncias me travam - nem chega a ser medo e sim meios... mas vamos tentando né??
      Bjs e obrigada pelo depoimento, gostei muito!

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