Nestes dias muito se falou sobre grafites apagados na cidade de São Paulo e obviamente as pichações também entraram nos debates.
Como estudante de subculturas, ano passado me interessei pela subcultura do picho meio sem querer. Eu estava assistindo despretensiosamente um programa no canal Arte 1 sobre arte de rua, e o picho foi abordado. Aquele programa fez um click no meu cérebro e me fez ver os pichadores com olhos completamente diferentes do que estava habituada. Dei uma pesquisada breve no tema e aprendi coisas muito profundas. Aquele tipo de coisa que eu, que adoro ciências sociais, nunca tinha parado pra pensar. 


Os pichadores são comumente chamados de "vândalos", mas são na verdade transgressores e reflexo da exclusão social. 
Da divisão de classes. 
Ocupam o que lhes foi negado.
Confrontam a sociedade. 
Eles saem da invisibilidade direcionada ao ser humano pobre da periferia. 
A forma destes seres excluídos da sociedade terem uma voz é pichando o que a sociedade acha lindo e privado. E o que é público e negado à eles.


O lindo muro da propriedade privada foi pichado? Aquele monumento escultural de um artista famosíssimo? Escritas "feias" e indecifráveis na fachada de um prédio de bela arquitetura?
Foi a forma que quem foi excluído de tudo isso encontrou pra expressar sua revolta social. Anular a forma que eles encontram de demonstrar sua revolta social é excluir estas pessoas mais uma vez em cidades que estão cada vez mais privadas e exclusivistas. 


Já tem picho - isso mesmo, picho - de brasileiros sendo vendido em Galerias de Arte na Europa e EUA por milhares de dólares. Ocorre de um picho no muro ter mais o que dizer do que um jornal que só passa notícias ruins.
E nós ainda estamos muito, mas muito atrasados na mentalidade sobre subculturas e a forma como elas encontram de se expressar na nessa sociedade castradora e silenciadora de pobres questionadores. 

Anarquistas graças à deus

Picho sendo cultura.


Não peço que ninguém defenda pichadores. Só acho que precisamos pensar além do óbvio. Que antes de julgar esta forma de expressão, as pessoas procurem tomar conhecimento sobre o que a exclusão social provoca no meio em que vivemos e quais as formas que o povo encontra de se comunicar nas cidades. As pessoas precisam entender que eles existem por causa de um contexto social e também porque querem tomar parte da cidade que lhes é negada. O que é estranho é a falta de questionamento, que não queiram saber ou não tenham interesse. Mas ok, sei que nem todos tem obrigação de ser questionadores como nós alternativos somos. Só que não me interesso por julgamentos rasos,  me interesso que as coisas sejam debatidas de forma mais profunda e clara, sem manipulações de informação para que cada pessoas forme sua opinião de forma consciente. 
 


O picho não é só sobre os excluídos. É sobre eu, você e uma necessidade que surja de se expressar publicamente nas ruas. É fazer da cidade um local de comunicação. E isso é extremamente transgressor já que existem regras que devemos obedecer. Mas quem respeita os jovens periféricos e não os julga pela cor de pele ou vestimentas? Quem dá voz aos jovens sem voz?

 
Então eu pergunto: por que nossos prefeitos ao invés de apagar os pichos (que são a parte superficial dessa história toda), não mergulham nos problemas reais dos jovens periféricos e criam programas pra inseri-los dignamente na sociedade? Qual é o programa de governo de seu prefeito para a classe baixa? Eles pegam os pobres e jogam cada vez mais nas periferias, anulando-os, excluindo-os o direito de fazer parte delas com a desculpa de "limpar" as cidades que os próprios governantes foram omissos??



Então não, ninguém precisa ser a favor de pichadores, mas acredito que todos tem a capacidade intelectual de entender porque o picho ocorre, o que ele significa e que aquela é uma  forma de pessoas terem voz, comunicarem-se com a cidade e com a sociedade em que vivem.


Quando Raul Seixas dizia "prefiro ser essa metamorfose ambulante" ele não queria dizer que mudava de opinião toda hora a ponto de ser uma pessoa sem opinião e sim, que cada dia ele aprendia mais e mais e ia desconstruindo os próprios conceitos pré estabelecidos criando assim uma nova mentalidade e ideia sobre um assunto que parecia definido.
E eu sou assim, quanto mais aprendo sobre um tema e suas causas, mais mudo minhas opiniões. Frank Zappa já dizia que a mente é como um paraquedas, só funciona se estiver aberta.

"Agressivo não é o picho, é a sociedade que protege o muro com facão e arma de fogo. O picho é uma resposta para a segregação espacial que existe em São Paulo.
 - frases de Cripta Djan e minha sugestão é a leitura desta matéria aqui.



 Beijo às divas questionadoras cujas mentes não se contentam com o que nos é ensinado como "certo".


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